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UM POUCO DA MINHA ESTORIA COM BARRERITO O CANTOR DAS ANDORINHAS /// FOTOS

Um presente para meus amigos..................UM POUCO DA MINHA ESTORIA COM BARRERITO O CANTOR DAS ANDORINHAS /// FOTOS <head><sc...

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

  Capítulo III — A Estação do Reencontro

Quando a última nota da música se dissolveu no ar, o silêncio que retornou à sala já não carregava o

peso de uma ausência. Tinha o frescor de um recomeço. Desliguei o rádio com um toque suave, não

para calar a sua voz, mas para guardar aquele momento como um amuleto dentro do peito.

Caminhei até o quarto e abri o guarda-roupa.

Lá no fundo, sob casacos antigos e memórias empoeiradas, estava a velha caixa de papelão que eu

não tinha coragem de tocar há mais de um ano. Dentro dela, fotografias com bordas gastas,

ingressos de shows memoráveis e aquela sua jaqueta jeans desbotada, que ainda guardava um

rastro quase imperceptível de loção pós-barba e poeira de estrada.

Peguei a jaqueta. Em outros dias, aquele pedaço de pano teria me feito desabar no chão, abraçada

ao fantasma do que fomos. Mas hoje, eu apenas a vesti. Ela ficou grande nos ombros, um abraço

largo e familiar que me protegeu do vento fresco que entrava pela janela. Olhei-me no espelho e vi,

nos meus próprios olhos, um brilho que eu julgava ter esquecido em algum lugar do passado.

Decidi sair. Caminhei pelas ruas do bairro sentindo o sol da manhã esquentar o asfalto úmido. As

pessoas passavam com pressa, imersas em suas próprias rotinas, alheias ao pequeno milagre

doméstico que havia acabado de acontecer na minha sala de estar. Parei na floricultura da esquina,

um lugar que costumávamos frequentar juntos aos sábados.

— O mesmo vaso de sempre? — perguntou o florista, reconhecendo-me com um sorriso

complacente.

— Não — respondi, e minha própria voz soou firme, quase nova aos meus ouvidos. — Hoje eu quero

girassóis. Os mais radiantes que tiver.


Caminhei de volta para casa segurando as flores amarelas contra o peito, como quem carrega um

pedaço do próprio sol. Ao entrar, mudei os móveis de lugar. Abri as cortinas da sala inteira, deixando

a luz inundar cada canto que antes vivia na penumbra. Coloquei os girassóis bem no centro da mesa

da cozinha, onde o vapor do café havia desenhado o futuro algumas horas antes. O passado ainda

estava ali, vivo e eterno, impresso na minha história. Mas o presente batia na janela com a urgência

da vida que não espera. O ontem tinha sido feito; o hoje era meu para construir!


©nilzacarvalho



Feito de Ontens - Capítulo IV — A Poesia das Ruas

  Feito de Ontens - Capítulo IV — A Poesia das Ruas

A jaqueta jeans, que antes parecia um escudo contra o mundo, agora era apenas um casaco

confortável para uma tarde de outono. Tranquei a porta de casa — não para me esconder do que

ficou lá dentro, mas para descobrir o que estava me esperando lá fora. Havia um burburinho na

cidade, aquela energia típica de um fim de tarde onde as pessoas buscam um pretexto para

desacelerar da rotina.

Caminhei sem rumo até a praça central, o coração pulsante da cidade onde os artistas de rua

costumam se reunir. De longe, notei uma pequena multidão se formando em círculo perto do

chafariz. Um som familiar cortou o ar: o dedilhar ritmado de uma viola  e o choro sutil de um

violão. Meu coração deu um salto involuntário, mas não de dor. Foi o eco do reconhecimento.

Aproximei-me devagar, misturando-me aos desconhecidos. No centro da roda, dois rapazes jovens,

com os rostos queimados de sol e o brilho nos olhos de quem está começando, cantavam uma

daquelas músicas do "lado B" do repertório dele — uma daquelas canções profundas que não

tocavam no rádio, mas que ele compôs em uma madrugada chuvosa no nosso quarto.

Fechei os olhos por um segundo. Ao meu redor, as pessoas cantavam em coro, baixinho,

comovidas. Um homem de cabelos brancos limpava o canto do olho; uma jovem segurava a mão do

namorado. Naquele momento, percebi a grandiosidade do que tínhamos vivido. Ele não pertencia

mais apenas à minha saudade ou aos meus discos. Ele pertencia ao vento, ao povo, à memória

afetiva de cada uma daquelas pessoas que nunca o abraçaram, mas que se sentiam abraçadas por

suas palavras.

Quando a música acabou e os aplausos ecoaram pela praça, os rapazes agradeceram e um deles

disse ao microfone: "Essa foi para quem sabe que a boa música nunca morre". Sorri. Dei alguns

passos à frente, tirei uma nota do bolso e a depositei na caixa aberta do violão deles. O jovem

violeiro me olhou, surpreso, e fixou os olhos na jaqueta jeans que eu usava. Ele pareceu reconhecer

a energia.

— Bela jaqueta, moça — disse ele, com um aceno respeitoso com o chapéu. — Ele aprovaria.

— Obrigada — respondi, e pela primeira vez, o agradecimento não veio acompanhado de um nó na

garganta. — Ele com certeza está orgulhoso de vocês.


Dei as costas à roda e continuei minha caminhada. O sol começava a se deitar atrás dos prédios,

pintando o céu de tons de rosa e dourado. Eu estava sozinha na calçada, mas já não me sentia

solitária. O amor dele tinha se transformado em arte pública, e eu, finalmente, fazia parte do público

de novo, pronta para assistir ao espetáculo do mundo.

©nilzacarvalho