"Feito de Ontens"
Recordo-me dos ontens porque estavam repletos de você. Havia a sua risca de luz na sala, o som do seu riso costurado ao vento das tardes e aquela sensação miúda de que o tempo nunca ousaria nos tocar. Éramos imensos no espaço de um abraço. Infelizmente, o presente insiste em me lembrar que você agora é apenas uma bonita história para contar. O silêncio da casa hoje tem o seu formato, e as páginas dos dias correm frias, restando-me apenas o exercício de folhear, na mente, o enredo daquilo que fomos e que o tempo, sem pressa, transformou em saudade.Fecho os olhos e ainda consigo tatear os detalhes: o calor da sua mão morna na minha, o cheiro de café fresco misturado ao seu perfume e os planos bobos que desenhávamos no teto do quarto. Éramos feitos de miudezas que pareciam eternas. Perco-me nos minutos revivendo aquela terça-feira qualquer, o avesso do seu sorriso, o tom exato da sua voz me chamando pelo nome. No fim, a memória é esse labirinto bonito onde eu sempre escolho me perder, só para esbarrar em você mais uma vez.Abro os olhos e encosto a testa no vidro frio da janela, observando o mundo lá fora ser lavado pela chuva mansa que cai. O meu reflexo embaçado na vidraça me devolve a imagem de uma mulher que já não chora, mas que carrega no olhar a calmaria de quem aceitou o fim. Deixo que a última gota deslize pelo vidro assim como você deslizou da minha vida, sabendo que algumas pessoas nascem para ser o nosso caminho, e outras, apenas a nossa mais bonita paisagem. Respiro fundo, viro as costas para a tempestade e dou o último passo para fora do nosso passado.
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